1- Uma intensa disseminação: a África como locus na literatura portuguesa.
Neste texto procura-se analisar os meandros da histórica ligação de
Portugal ao continente africano por via de referências ao espaço
africano na literatura portuguesa, relação tida como um dos mais
relevantes tópicos da identidade portuguesa. A reflexão sobre África
efectuou-se na literatura portuguesa entre o sentido de pertença que a
heroicização do passado impõe e o desejo de afirmação de uma identidade
atlântica posterior ao abandono das colónias africanas. Acompanhando a
transformações históricas do colonialismo português, verifica-se que a
disseminação deste tópico decorreu sobretudo a partir do século XIX, até
ao momento fulcral de memória do passado da Guerra Colonial em que ao
“trauma” colonial se junta a necessidade de um balanço no período
pós-colonial, muitas vezes com ecos da memória do passado nacional.
2. De experiências e vivências- a trajetória da disseminação:
Esse atual regresso a África não se faz na esteira da literatura
colonial, aquela que participa da concertação sinfónica da
subalternização do homem africano e que, na construção textual, desenha a
apologia do império e da colonização como necessária ao processo
civilizatório.
Essa configuração ideológica é actualizada a nível técnico-compositivo e
semântico-pragmático da urdidura textual (narrativa e lírica) e na sua
intencionalidade ideológica pela representação de uma
espácio-temporalidade africana hostil – o que permitia a construção
heróica da figura do colonizador. O espaço não funcionava como “local da
cultura”, sendo que, neste processo de construção literária, os
sujeitos produtores de enunciação não eram os africanos, mas sim
geralmente sujeitos metropolitanos que mantinham com aquele espaço uma
tensa relação de alteridade dinamizada pelo “espírito de missão
civilizadora”.
3. De vivências e reflexões: as diferentes disseminações:
Os discursos da memória articulam questões de poder e de política.
Diferentes são, no entanto, os contornos dessa poética: ora para ligar
este espaço à história de Portugal (como nas duas últimas obras
supracitadas), ora para o ligar à conjuntura internacional, com uma
agência portuguesa bem presente, embora condicionada pela realpolitik, como em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003), de António Lobo Antunes, eLenin Oil
(2006), de Pedro Rosa Mendes, em que em Angola ou em São Tomé e
Príncipe, diamantes, petróleo e armas substituem a causa da
“civilização” numa África que surge, agora, numa ambígua dimensão
paradisíaca, por aquilo que pode proporcionar, e infernal, por aquilo
que de facto proporciona aos africanos, “Um presente onde o passado se
mistura com o instante. A busca da verdade na mentira da ficção”, como
afirma Maria Luisa Blanco (2003) a propósito de Boa Tarde às Coisas Aqui
em Baixo; ora como sujeitos de uma “multicultura fragmentada”.
3. O "local africano": a intensidade da disseminação.
Disse atrás “sabor” africano. Tempo espaço, não já ultramarinos e
coloniais, tornam-se, assim, categorias que, redimensionadas nos estudos
pós-coloniais, devolvem ao local e à subjectividade o lugar que a voragem globalizante parece ter consumido sob invólucros cosmopolistas e universais.
E hoje essa escrita ganha novas significações, tematizando, sob uma
batuta subjectivizante, espaços antes em contenda (português e
africanos) que agora surgem como localidades em que é possível “restaurar o sabor das coisas e os ritmos lentos dos tempos antigos” (Nora, 1997: 29).
4. As inferências ideológicas da estética da disseminação.
A nova
tematização dessa relação colonial acaba, assim, por ser a de um novo
projecto de outridades e diversidades, actualizado num jogo em que vão
ecoando harmonias e desarmonias, para me reportar a uma metáfora de Édouard
Glissant. Talvez por isso ainda hoje persiste a hesitação quanto ao lugar no
sistema literário português e nos sistemas africanos, de certas obras e
autores, o que decorre (ainda) da ideia de identidade cultural como construída
primordialmente, e às vezes exclusivamente, na Ibéria assim como a pretensão
apriorística de que a obra de qualquer escritor que tenha nascido ou vivido em
África possa por isso ser africana.

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