terça-feira, 4 de junho de 2013

Literatura Africana - Inocencia Mata.


1- Uma intensa disseminação: a África como locus na literatura portuguesa.
Neste texto procura-se analisar os meandros da histórica ligação de Portugal ao continente africano por via de referências ao espaço africano na literatura portuguesa, relação tida como um dos mais relevantes tópicos da identidade portuguesa. A reflexão sobre África efectuou-se na literatura portuguesa entre o sentido de pertença que a heroicização do passado impõe e o desejo de afirmação de uma identidade atlântica posterior ao abandono das colónias africanas. Acompanhando a transformações históricas do colonialismo português, verifica-se que a disseminação deste tópico decorreu sobretudo a partir do século XIX, até ao momento fulcral de memória do passado da Guerra Colonial em que ao “trauma” colonial se junta a necessidade de um balanço no período pós-colonial, muitas vezes com ecos da memória do passado nacional.

2. De experiências e vivências- a trajetória da disseminação:
Esse atual regresso a África não se faz na esteira da literatura colonial, aquela que participa da concertação sinfónica da subalternização do homem africano e que, na construção textual, desenha a apologia do império e da colonização como necessária ao processo civilizatório. Essa configuração ideológica é actualizada a nível técnico-compositivo e semântico-pragmático da urdidura textual (narrativa e lírica) e na sua intencionalidade ideológica pela representação de uma espácio-temporalidade africana hostil – o que permitia a construção heróica da figura do colonizador. O espaço não funcionava como “local da cultura”, sendo que, neste processo de construção literária, os sujeitos produtores de enunciação não eram os africanos, mas sim geralmente sujeitos metropolitanos que mantinham com aquele espaço uma tensa relação de alteridade dinamizada pelo “espírito de missão civilizadora”.

3. De vivências e reflexões: as diferentes disseminações: 
Os discursos da memória articulam questões de poder e de política.
Diferentes são, no entanto, os contornos dessa poética: ora para ligar este espaço à história de Portugal (como nas duas últimas obras supracitadas), ora para o ligar à conjuntura internacional, com uma agência portuguesa bem presente, embora condicionada pela realpolitik, como em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003), de António Lobo Antunes, eLenin Oil (2006), de Pedro Rosa Mendes, em que em Angola ou em São Tomé e Príncipe, diamantes, petróleo e armas substituem a causa da “civilização” numa África que surge, agora, numa ambígua dimensão paradisíaca, por aquilo que pode proporcionar, e infernal, por aquilo que de facto proporciona aos africanos, “Um presente onde o passado se mistura com o instante. A busca da verdade na mentira da ficção”, como afirma Maria Luisa Blanco (2003) a propósito de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo; ora como sujeitos de uma “multicultura fragmentada”.

3. O "local africano": a intensidade da disseminação.
Disse atrás “sabor” africano. Tempo espaço, não já ultramarinos e coloniais, tornam-se, assim, categorias que, redimensionadas nos estudos pós-coloniais, devolvem ao local e à subjectividade o lugar que a voragem globalizante parece ter consumido sob invólucros cosmopolistas e universais. E hoje essa escrita ganha novas significações, tematizando, sob uma batuta subjectivizante, espaços antes em contenda (português e africanos) que agora surgem como localidades em que é possível “restaurar o sabor das coisas e os ritmos lentos dos tempos antigos” (Nora, 1997: 29). 

4. As inferências ideológicas da estética da disseminação.
A nova tematização dessa relação colonial acaba, assim, por ser a de um novo projecto de outridades e diversidades, actualizado num jogo em que vão ecoando harmonias e desarmonias, para me reportar a uma metáfora de Édouard Glissant. Talvez por isso ainda hoje persiste a hesitação quanto ao lugar no sistema literário português e nos sistemas africanos, de certas obras e autores, o que decorre (ainda) da ideia de identidade cultural como construída primordialmente, e às vezes exclusivamente, na Ibéria assim como a pretensão apriorística de que a obra de qualquer escritor que tenha nascido ou vivido em África possa por isso ser africana.




OBS: Essa postagem contem apenas o resumo do conteúdo que foi exposto na palestra sobre Literatura Africana da Prof ª Inocência Mata, no dia 31 de maio na Camara Municipal. O documento contendo o conteúdo está disponível no grupo que foi criado para o Intercambio Cultural no Facebook. Se algum leitor do blog se interessar pelo documento e não teve acesso ao documento via facebook, informar o e-mail nos comentários.

Nenhum comentário:

Postar um comentário