segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Cantinho da leitura.


Leitura é habito - Júlia Dantas.

Quando eu tinha 9 anos, fui apresentada ao Ziraldo por uma professora que até hoje admiro muito, fiquei encantada pelo O menino maluquinho e depois desse empurrãozinho, não parei mais de ler.
Depois de tanto tempo, por acaso, uma professora decidiu "se livrar" de alguns livros e então me reencontrei com a obra que me fez ficar apaixonada pela leitura, não hesitei em compra-lo pela mixaria de 5 reais. Cheguei em casa, e fui logo correndo mostra-lo a minha sobrinha, não surtiu muito efeito, já que ela estava jogando no seu tablet, resolvi não insistir já que aquele não era o nosso horário habitual de leitura. Fui pra aula e fiquei me perguntando se nela surtiria o mesmo efeito que surtiu em mim quando o li pela primeira vez. Assim que cheguei, disse que leríamos a historia de um menino muito sapeca, ela foi logo dizendo que queria continuar a assistir desenho e que leríamos amanhã, como aquele era o nosso horário de leitura insisti até que ela cedesse.  
Começei a ler, e ela estava minimamente interessada, até que começou a surgir as figuras que prenderam sua atenção totalmente, nessa edição o livro tem 106 paginas, com muitas figuras o que fez ela gostar ainda mais do livro. Foi uma leitura rapida e quando me dei conta já tinhamos terminado o livro todo. Assim que parei de ler ela perguntou porque eu havia parado, expliquei que já havia terminado então ela me disse "Ninine eu acho que eu gosto do menino maluquinho, a gente pode ler só mais um pouquinho?". Minha reação como uma boa leitora, que tenta a todo custo habituar a sobrinha desde cedo a ler, foi de extrema felicidade, fiquei impressionada com o que esse livro é capaz de fazer quando uma criança o lê. Não é a toa que o livro de Ziraldo é um classico.
Não é tão fácil habituar uma criança de 3 anos a ler, mas não é impossível, criança gosta de brincar, assistir desenho, se movimentar e ficar parada por meia hora se quer para ficar ouvindo historias é muito difícil para elas, mas quanto mais cedo esse habito começa a ser criado, melhor será para ela. 
O efeito que o livro surtiu em mim, felizmente, também surtiu nela, espero que assim como eu, ela não desgrude mais dos livros.

Aline Dantas.

sábado, 17 de agosto de 2013

Frases de livros.


Hora do poema: Vinicius de Moraes.


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Poesia marginal: Bernardo Vilhena.




Tire a faca do peito
e o medo dos olhos
Ponha uns óculos escuros
e saia por aí. Dando bandeira


Tire o nó da garganta
que a palavra corre fácil
sem desculpas nem contornos
Direta: do diafragma ao céu da boca


Tire o trinco da porta
liberte a corrente de ar
Deixe os bons ventos levantarem a poeira
levando o cisco ao olho grande


Tire a sorte na esquina
na primeira cigana ou no velho realejo
Leia o horóscopo e olhe o céu
lembre-se das estrelas e da estrada
Tire o corpo da reta
e o cu da seringa
que malandro é você, rapaz
o lado bom da faca é o cabo


Tire a mulher mais bonita
pra dançar e dance
Dance olhando dentro dos olhos
até que ela morra de vergonha


Tire o revólver e atire
a primeira pedra
a última palavra
a praga e a sorte
a peste, ou o vírus?

Silencio - Karen Debértolis.


O silêncio dói muito mais na pele do inimigo que o grito
Pousa assim, cálido, como uma resposta sem pontuação
Deita suave nas concavidades dos ouvidos.
Desconcerta.
Desmancha certezas.
Hospeda pulgas atrás das orelhas
Arma afiada
Toque lancinante
Estratégia zen
Linguagem de deuses da arte da guerra.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Poesia marginal: Afonso Henrique Neto.


o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada


mais os vazios passos
de ela própria menina.


a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.


o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos


nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.

Tatuagens literária.


Inspirada em Orgulho e preconceito (Pride and Prejudice) da escritora Jane Austen.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Anne Frank.


Vida de leitor.


Leitor.


Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que nunca leu, vive apenas uma.

Estantes recicladas.





Poesia marginal: Cacaso


Jogos Florais.

Minha terra tem palmeiras

onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.


Minha terra tem Palmares

memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.


(será mesmo com dois esses

que se escreve paçarinho?)

Tatuagens literárias.


Inspirada em Alice no país das maravilhas.

Frases de livros.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Poesia Marginal: Nicolas Behr


Receita. 

Ingredientes:
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles


Modo de preparar:
dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas corte tudo em pedacinhos

e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver
parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões



Hora do poema: Jô Soares.


Homem perfeito.

O homem perfeito é lindo
Tem um pouco de mistério
É belo quando está rindo 
E belo quando está sério

O homem perfeito é bom
Tem um jeito carinhoso
Quando fala em meigo tom
Causa arrepio gostoso

O homem perfeito é fino
É solicito, é fiel
Tem a graça de um menino
E é mais doce que o mel

O homem perfeito adora dar flores 
Botões de rosa 
A uma velha senhora
Ou uma jovem formosa

O homem perfeito tem a energia
Não se cansa, lava a louça
Cozinha, gosta muito de criança

O homem perfeito é sensível
A grande arte, gosta de dança e balé
Nunca há de magoar-te

Pra encerrar a preceito
Esses versos que alinhei 
Se existe um homem perfeito
Ele só pode ser gay.

Tyrion Lannister.


Tyrion Lannister, O duende. Personagem de George Martin da serie de livros As Cronicas do Gelo e do Fogo.

Tatuagens literárias.


Novidade: vou postar de hoje em diante, fotos de tatuagens inspiradas em livros. Farei o possível para colocar o nome do livro em que a tatto foi inspirada, algumas vezes eu posso não achar o titulo ou até mesmo o livro não ser traduzido em português, então colocarei seu titulo na linguagem de origem :)


O pequeno príncipe.

Frases de livros.


Desventuras em serie - Daniel Handler

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Cantinho da leitura.


Hora do poema: Gonçalves Dias.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Resenha: Quarup.

É um romance extremamente representativo brasileiro, expõem as mazelas de um governo falho e um povo que padece sobre os olhos de quem faz pouco caso e cansados de tanto sofrimento decide lutar pelos seus direitos. Apesar de ter sido escrito entre 1965 e 1966, os problemas que o livro retrata ainda são atuais já que no Brasil o passado não passa e o futuro tarda a chegar.
Mesmo pra quem não sabe muito sobre romances existencialistas, percebe já nas primeiras paginas que esse é um dos livros que fará você questionar o "por que?" de muitas coisas. A grande diferença entre esse romance e outras obras existencialistas é a forma como as questões são abordadas, já que esse livro mostra os dois lados de um assunto com debates feitos entre personagens com opiniões opostas. Não simples personagens, e sim, personagens muito bem elaborados, inteligentes, de opiniões próprias e fortes.
Nando, o personagem principal, inicia o livro como um padre com uma forte ligação com os dogmas da igreja e vai para uma reserva indígena para evangelizar os índios, no primeiro momento Nando se mostra fraco, inseguro em fazer a evangelização ou criar opiniões próprias, entretanto conforme situações em sua vida  vão surgindo, ele vai se modificando e mudando a forma de ver o mundo, é ai que ele vaga por diversas situações, de padre passa a burgues, mulherengo, revolucionário, vitima da ditadura militar, guerrilheiro, ele forma vários pensamentos de acordo com o momento em que ele está vivendo e o que está sentindo, e não são pensamentos fúteis, mas pensamentos em que precisou-se de experiencias reais para que eles fossem formados, como se o personagem realmente tivesse existido e vivido tudo aquilo. 
Um romance muito bem escrito, com personagens inteligentes que crescem ao desenrolar da historia e não se contentam com a condição de vida que lhes são impostas e saem da zona de comodismo para que assim possa haver melhorias, expondo e tentando entender as complexas causas de um país com tantos problemas e porque medidas tão devastadoras como as torturas da ditatura militar são tomadas contra seu proprio povo.
É a obra mais importante de Antonio Callado, chegou até mesmo a ser adaptado para o cinema.


Aline Dantas Toscano.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sebo.

O sebo é onde se vende livros usados ou doados por baixíssimos preços, e muitas vezes se encontram nesse sebo livros que já não se vendem mais em livrarias. Quando se fala em sebo, vem a cabeça das pessoas a ideia errônea de livros velhos e sujos que ninguém mais quer, mas quem compra nesses sebos sabe que não é bem assim.  É claro que há os livros velhos de edições primarias de capa dura, mas há também livros novos e em perfeito estado, então não há porque não economizar um dinheirão optando por comprar no sebo. Há ofertas muito boas, por exemplo, livros que em uma livraria você pagaria por volta de 29,90 reais, no sebo pode ser encontrado em perfeitas condições por 5,60. Dom Casmurro mesmo, que é um clássico, varia em 1,00 real até 4.000 reais (1ª edição). Muitos colecionadores procuram esses sebos para comprar relíquias como a primeira edição de Dom Casmurro. E o que é mais legal, muitas vezes o frete é gratis, então você pode comprar um livro por 1 real e o frete ainda ser grátis.

O sebo que eu custumo comprar livros é esse aqui: Estante Virtual.

Paulo Leminski.


Biblioteca de Spijkenisse - Holanda.








Canto da leitura.


Hora do poema: Carlos Drummond de Andrade.


A UM AUSENTE.

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste



Decidi fazer a hora do poema. Toda semana vou postar, textos, poemas e poesias dos principais autores brasileiros.

Resenha: Eu, Christiane F. 13 anos drogada e prostituída.



O próprio titulo do livro, apesar de impactante, já é auto-explicativo.
Já nas primeiras paginas, Christiane nos da um relato problemático de sua vida, não consegue ser aceita pelas pessoas "normais", não tem amigos, faz parte de uma família desestruturada, não consegue se adaptar a qualquer escola pelas quais passou e possui uma vontade incrível de ser compreendida, de sentir algo que nunca conseguiu sentir e como válvula de escape busca todas as soluções para os seus problemas no mundo das drogas. 
Ao entrar nesse mundo e conhecer pessoas que também seguiam o mesmo caminho, aprende que nesse mundo todos são iguais, drogados, ricos, pobres, homossexuais, estrangeiros, não há distinção e se sente compreendida já que viu naquelas pessoas de vidas miseráveis uma oportunidade de ser aceita, de não ser julgada, e se viu com as mesmas angustias e anseios.
Em consequência do vicio, conhece e adentra no mundo da prostituição e passa a fazer uso de drogas mais fortes como a heroína, é quando chega ao fundo do poço e não aguenta mais viver daquela maneira, busca ajuda com sua mãe que a tranca em casa para se desintoxicar, é ai que passa a viver em altos e baixos, na qual ela mesma possui uma busca incessante de sair desse mundo mas nunca consegue.
 O livro explícita a forma como uma drogada vive, e expõem as trágicas consequências de um mundo miserável, e trás a tona questões que muitos fecham os olhos para não ver, como por exemplo, a exclusão de pessoas que não seguem o padrão social, homossexualismo, prostituição.
Esse é uns dos livros que deviam ser implantados nas escolas e poderia facilmente causar efeitos melhores do que os causados por palestras de prevenção a drogas, já que mostra todos os malefícios desse caminho relatados pela própria drogada, é um livro que educa, ensina, apaixona, assusta, choca e principalmente previne o uso de todos os tipos de drogas.
O fato mais impactante do livro é que ela não consegue sair desse mundo, Christiane por volta de 51 anos e até hoje em dia ainda se vê nos jornais sua busca pela libertação das drogas.


Aline Dantas.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Cantinho da leitura.


305 livros grátis para ler no seu computador ou tablet.

Olhando coisas sobre leitura na internet e dei de cara com esse site, que oferece 305 livros grátis para ler no computador ou tablet. É super interessante e uma solução bem facil para quem não tem condições de comprar todos os livros que deseja ler (sabemos que a lista de um leitor é beeeem grande). 
E o mais legal é que são livros muito interessante e clássicos, como A dívina comédia (Dante), Romeu e Julieta (Shakespeare), A cartomante (Machado de Assis) e por ai vai.

Aqui está o link do site, é só clicar e escolher o livro que deseja ler: AlexandrePorfírio.


terça-feira, 11 de junho de 2013

Cantinho da leitura.


Ana Maria Machado - Programa do Jo.


Ana Maria Machado é Presidente da Academia de Letras é uma das autoras que mais vende livros no Brasil, foi entrevistada pelo Jô Soares nesta segunda-feira (10 de junho) e fala sobre projetos de leitura.


Não consegui postar o video aqui, mas aqui tá o link: Ana Maria Machado - Jô Soares.

terça-feira, 4 de junho de 2013

O brasileiro não lê - Danilo Venticinque.

A história de uma frase feita, e uma sugestão para quem insiste em repeti-la.

O brasileiro não lê. Ao menos é isso que eu tenho escutado. Por obrigação profissional e por obsessão nas horas vagas, costumo conversar muito sobre livros. Com uma frequência incômoda, não importa qual é a formação de quem fala comigo, essa frase se repete. Amigos, taxistas, colegas jornalistas, escritores e até executivos de editoras já me disseram que o brasileiro não lê.
Quando temos dificuldade para entender uma frase, uma boa técnica de aprendizado é repeti-la várias vezes. Um dos meus primeiros professores de inglês me ensinou isso. Nunca pensei que fosse usar esse truque com uma frase em português. Mas, depois de ouvir tantas vezes que o brasileiro não lê, e de discordar tanto dos que dizem isso, resolvi tentar fazer esse exercício. Talvez enfim eu os entenda. Ou talvez eu me faça entender. 
O brasileiro não lê, mas a quantidade de livros produzidos no Brasil só cresceu nos últimos anos. Na pesquisa mais recente da Câmara Brasileira do Livro, a produção anual se aproximava dos 500 milhões de exemplares. Seriam aproximadamente 2,5 livros para cada brasileiro, se o brasileiro lesse.
O brasileiro não lê, mas o país é o nono maior mercado editorial do mundo, com um faturamento de R$ 6,2 bilhões. Editoras estrangeiras têm desembarcado no país para investir na publicação de livros para os brasileiros que não leem. Uma das primeiras foi a gigante espanhola Planeta, em 2003. Naquela época, imagino, os brasileiros já não liam. Outras editoras vieram depois, no mesmo movimento incompreensível.  O brasileiro não lê, mas desde 2004 o preço médio do livro caiu 40%, descontada a inflação. Entre os motivos para a queda estão o aumento nas tiragens, o lançamento de edições mais populares e a chegada dos livros a um novo público. Um mistério, já que o brasileiro não lê. 
O brasileiro não lê – e os poucos que leem, é claro, são os brasileiros ricos. Mas a coleção de livros de bolso da L&PM, conhecida por suas edições baratas de clássicos da literatura, vendeu mais de 30 milhões de exemplares desde 2002. Com seu sucesso, os livros conquistaram pontos de venda alternativos, como padarias, lojas de conveniência, farmácias e até açougues. As editoras têm feito um esforço irracional para levar seu acervo a mais brasileiros que não leem. Algumas já incluíram livros nos catálogos de venda porta-a-porta de grandes empresas de cosméticos. Não é preciso nem sair de casa para praticar o hábito de não ler.   
O brasileiro não lê, mas vez ou outra aparecem best-sellers por aqui. Esse é o nome dado aos autores cujos livros muitos brasileiros compram e, evidentemente, não leem. Uma delas, a carioca Thalita Rebouças, já vendeu mais de um milhão de exemplares. Seus textos são escritos para crianças e adolescentes – que, como todos sabemos, trocaram os livros pelos tablets e só querem saber de games. Outro exemplo é Eduardo Spohr, que se tornou um fenômeno editorial com seus romances de fantasia. Ele é o símbolo de uma geração de novos autores do gênero, que escrevem para centenas de milhares de jovens brasileiros que não leem. 
O brasileiro não lê – e, mesmo se lesse, só leria bobagens. Mas, há poucos meses, um poeta estava entre os mais vendidos do país. Em algumas livrarias, a antologia Toda poesia, de Paulo Leminski (1944-1989), chegou ao primeiro lugar. Ultrapassou a trilogia Cinquenta tons de cinza, até então a favorita dos brasileiros (e brasileiras) que não leem. 
Na semana passada, mais de 40 mil brasileiros (que não leem) eram esperados no Fórum das Letras de Ouro Preto. Eu estava lá. Nas mesas de debates, editores discutiam maneiras de tornar o livro mais barato e autores conversavam sobre a melhor forma de chamar a atenção dos leitores. Um debate inútil, já que o brasileiro não lê. A partir desta semana, entre 6 e 16 de junho, a Feira do Livro de Ribeirão Preto (SP) deve receber mais de 500 mil pessoas. Na próxima segunda-feira (10), começa a venda de ingressos para a cultuada Festa Literária Internacional de Paraty, que inspirou festivais semelhantes em várias outras cidades do país. Haja eventos literários para os brasileiros que não leem. 
Na pesquisa Retratos da Leitura, divulgada no ano passado, metade dos brasileiros com mais de 5 anos disse não ter lido nenhum livro nos últimos três meses. É compreensível, num país em que há poucas livrarias, as bibliotecas públicas estão abandonadas e 20% das pessoas entre 15 e 49 anos são analfabetas funcionais. Mas há outra metade. São 88,2 milhões de leitores. Alguns se dedicam mais à leitura; outros, provavelmente a maior parte deles, são leitores ocasionais. Há um enorme potencial para crescimento, mas já é um número animador. 
Os brasileiros começaram a ler. Falta começar a mudar o discurso. Em vez de reclamar dos brasileiros que não leem, os brasileiros que leem deveriam se esforçar para espalhar o hábito da leitura. Espalhar clichês pessimistas não vai fazer ninguém abrir um livro. 
Eu poderia ter repetido tudo isso para cada pessoa de quem ouvi a mesma frase feita. Mas resolvi escrever, porque acredito que o brasileiro lê. 


Reportagem no site: Revista Época.

Literatura Africana - Inocencia Mata.


1- Uma intensa disseminação: a África como locus na literatura portuguesa.
Neste texto procura-se analisar os meandros da histórica ligação de Portugal ao continente africano por via de referências ao espaço africano na literatura portuguesa, relação tida como um dos mais relevantes tópicos da identidade portuguesa. A reflexão sobre África efectuou-se na literatura portuguesa entre o sentido de pertença que a heroicização do passado impõe e o desejo de afirmação de uma identidade atlântica posterior ao abandono das colónias africanas. Acompanhando a transformações históricas do colonialismo português, verifica-se que a disseminação deste tópico decorreu sobretudo a partir do século XIX, até ao momento fulcral de memória do passado da Guerra Colonial em que ao “trauma” colonial se junta a necessidade de um balanço no período pós-colonial, muitas vezes com ecos da memória do passado nacional.

2. De experiências e vivências- a trajetória da disseminação:
Esse atual regresso a África não se faz na esteira da literatura colonial, aquela que participa da concertação sinfónica da subalternização do homem africano e que, na construção textual, desenha a apologia do império e da colonização como necessária ao processo civilizatório. Essa configuração ideológica é actualizada a nível técnico-compositivo e semântico-pragmático da urdidura textual (narrativa e lírica) e na sua intencionalidade ideológica pela representação de uma espácio-temporalidade africana hostil – o que permitia a construção heróica da figura do colonizador. O espaço não funcionava como “local da cultura”, sendo que, neste processo de construção literária, os sujeitos produtores de enunciação não eram os africanos, mas sim geralmente sujeitos metropolitanos que mantinham com aquele espaço uma tensa relação de alteridade dinamizada pelo “espírito de missão civilizadora”.

3. De vivências e reflexões: as diferentes disseminações: 
Os discursos da memória articulam questões de poder e de política.
Diferentes são, no entanto, os contornos dessa poética: ora para ligar este espaço à história de Portugal (como nas duas últimas obras supracitadas), ora para o ligar à conjuntura internacional, com uma agência portuguesa bem presente, embora condicionada pela realpolitik, como em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003), de António Lobo Antunes, eLenin Oil (2006), de Pedro Rosa Mendes, em que em Angola ou em São Tomé e Príncipe, diamantes, petróleo e armas substituem a causa da “civilização” numa África que surge, agora, numa ambígua dimensão paradisíaca, por aquilo que pode proporcionar, e infernal, por aquilo que de facto proporciona aos africanos, “Um presente onde o passado se mistura com o instante. A busca da verdade na mentira da ficção”, como afirma Maria Luisa Blanco (2003) a propósito de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo; ora como sujeitos de uma “multicultura fragmentada”.

3. O "local africano": a intensidade da disseminação.
Disse atrás “sabor” africano. Tempo espaço, não já ultramarinos e coloniais, tornam-se, assim, categorias que, redimensionadas nos estudos pós-coloniais, devolvem ao local e à subjectividade o lugar que a voragem globalizante parece ter consumido sob invólucros cosmopolistas e universais. E hoje essa escrita ganha novas significações, tematizando, sob uma batuta subjectivizante, espaços antes em contenda (português e africanos) que agora surgem como localidades em que é possível “restaurar o sabor das coisas e os ritmos lentos dos tempos antigos” (Nora, 1997: 29). 

4. As inferências ideológicas da estética da disseminação.
A nova tematização dessa relação colonial acaba, assim, por ser a de um novo projecto de outridades e diversidades, actualizado num jogo em que vão ecoando harmonias e desarmonias, para me reportar a uma metáfora de Édouard Glissant. Talvez por isso ainda hoje persiste a hesitação quanto ao lugar no sistema literário português e nos sistemas africanos, de certas obras e autores, o que decorre (ainda) da ideia de identidade cultural como construída primordialmente, e às vezes exclusivamente, na Ibéria assim como a pretensão apriorística de que a obra de qualquer escritor que tenha nascido ou vivido em África possa por isso ser africana.




OBS: Essa postagem contem apenas o resumo do conteúdo que foi exposto na palestra sobre Literatura Africana da Prof ª Inocência Mata, no dia 31 de maio na Camara Municipal. O documento contendo o conteúdo está disponível no grupo que foi criado para o Intercambio Cultural no Facebook. Se algum leitor do blog se interessar pelo documento e não teve acesso ao documento via facebook, informar o e-mail nos comentários.